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Dakarianas

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Sumaré

Olá, amigos e amigas do Grande Prêmio e do BloGP. Tudo bem com vocês? Este é meu primeiro post aqui em 2013. Então, desde já, quero desejar a todos os leitores um sensacional ano, com muito sucesso e realizações mil. Todos nós merecemos.

E a mil está o Rali Dakar, a primeira grande competição do esporte a motor em 2013. Você pode acompanhar a cobertura especial que o Grande Prêmio vem fazendo desde os primeiros dias do ano aqui. Estamos levando não somente o noticiário, mas o dia a dia dos brasileiros no maior rali do mundo. Eram nove os competidores daqui, mas Lourival Roldan, o ‘papa do rali’, deixou a prova depois de não conseguir largar ontem ao lado dos bolivianos Luis Barbery e Hernán Daza, já que o Toyota Hilux do trio enfrentou problemas no motor.

O Dakar é, seguramente, uma das mais difíceis provas do automobilismo. Não basta o competidor estar bem preparado física e psicologicamente para enfrentar mais de 8.500 km pelos desertos da América do Sul, que recebe a prova desde 2009. Os veículos precisam de muita força para superar as dunas, muitas delas imensas.

A seguir, dois vídeos dos primeiros dias de prova: um resumo do trabalho da Husqvarna, que vem sendo destaque no Dakar principalmente com Joan Barreda, e do peso-pesado Tatra do tcheco Ales Loprais. Repare na extrema dificuldade que o caminhão de Loprais tem para subir uma duna. Como diria o outro, isto é Dakar, meu amigo!

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Nem tudo está perdido

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Sumaré

Quem acompanha o automobilismo sabe que nos últimos anos o esporte foi o centro de muitos episódios polêmicos e cheio de atitudes antidesportivas. Escândalos, batidas propositais, jogos de equipe, sabotagens e tudo mais. Isso falando só de F1, sem contar tudo o que acontece nas bandas desse Brasil varonil, fatos que já foram bem expostos aqui no Grande Prêmio nos últimos tempos.

Mas nem tudo está perdido. Guilherme Spinelli e Youssef Haddad, atuais bicampeões do Rali dos Sertões, vinham fazendo um grande Dakar e reuniam boas chances de figurar novamente no grupo dos dez melhores da competição. Com exceção dos problemas enfrentados na terceira especial, entre as cidades argentinas de San Rafael e San Juan, o duo brasileiro vinha em ritmo bastante consistente.

Até que chegou o dia de encarar as temidas dunas de Fiambalá, ainda na Argentina, em uma especial que já tirou as chances de vitória de Carlos Sainz em duas oportunidades, 2009 e 2011. Mas o azar de Spinelli e Haddad foi uma falha na bateria de seu Mitsubishi Lancer no km 95 da especial. Não havia condições de seguir. Até que a dupla recebeu a ajuda da equipe de apoio para substituir a peça, sendo possível assim a chegada até o destino final, com quase sete horas de atraso.

O regulamento do Dakar é muito rígido nesses casos. Ajuda externa só é permitida quando vem de outro competidor. Não por acaso, as maiores equipes fazem uso do ‘mochileiro’ (termo muito usado na Argentina), que são pilotos que disputam o rali, mas largam mais pesados por portarem peças sobressalentes que serão usadas pelo primeiro piloto em caso de alguma falha no equipamento. Ajuda da equipe de apoio ou mesmo de um transeunte? Nem pensar.

Em teoria, uma situação como essa passaria despercebida pela organização da prova, com tantas coisas para cuidar em uma competição gigantesca como é o Dakar. Mas Spinelli abriu o jogo de maneira que surpreendeu o presidente do corpo dos comissários do rali, Josep Besoli.

“Ele nos procurou, com lágrimas nos olhos, com uma carta em que comunicava seu abandono, por assistência irregular. É a primeira vez em 36 anos que eu vejo algo assim. Seria fantástico se pudéssemos convidá-lo no ano que vem. Deveria ser um exemplo para o resto dos competidores”, afirmou o dirigente, emocionado com o gesto do brasileiro.

Em um dos trechos da carta entregue a Besoli, Spinelli explicou: “Sei que ninguém me viu, mas não posso fazer isso. Não poderia aceitar terminar o Dakar trapaceando. Não poderia dormir com isso. A honestidade é a minha prioridade e única motivação”, escreveu o piloto.

O episódio chamou tanto a atenção que foi destaque de vários jornais argentinos e também do espanhol Marca. Após receber várias mensagens de apoio, Guiga agradeceu a todos em sua conta no Facebook.

“Nossa atitude foi simplesmente a única que podíamos tomar numa situação dessas. Sem dúvida eu e toda a equipe Mitsubishi Brasil ficamos muito felizes de poder ter despertado esse sentimento de justiça, honestidade, caráter e humildade. Foi muito bom sermos vistos pela elite do rally mundial, pelo rally brasileiro e pelas pessoas em geral como um exemplo a ser seguido. Não tomamos essa decisão com essa intenção, mas se despertarmos esse sentimento ficamos ainda mais felizes com a nossa decisão.”

Atos como esse são cada vez mais raros em um ambiente cruel e competitivo [às vezes injusto também] como é o automobilismo, como é o esporte em si, sobretudo nos últimos tempos. Depois de praticamente um ano inteiro trabalhando no projeto Dakar, Spinelli e Youssef deixam a prova, sem chegar ao final, é verdade, mas dando uma verdadeira lição. Uma lição de espírito esportivo.

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O ‘tanque de guerra’ de Nasser

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Sumaré

Por muito pouco, Nasser Al-Attiyah não pôde defender o título do Rali Dakar conquistado neste ano. Quando viu que a Volkswagen abriu mão do projeto Touareg para a prova, priorizando assim o WRC, o príncipe catariano se viu sem saída e logo buscou alternativas para participar do maior rali do mundo. Al-Attiyah tentou um contrato com a X-Raid para correr de Mini, mas por motivos não divulgados, o acordo não deu certo. (X-Raid, que aliás, montou um verdadeiro esquadrão para o Dakar, liderado pelo campeoníssimo Stepháne Peterhansel, um dos favoritos à vitória em 2012).

Tudo indicava mesmo que Nasser só assistiria o Dakar 2012 pela televisão. Mas eis que apareceu Robby Gordon — aquele mesmo que já pilotou na Indy e agora corre na Nascar —, que arrumou um carro para Al-Attiyah disputar a prova. Carro, nesse caso, serve apenas como um modo genérico de mencionar o Hummer H3 que o príncipe do Catar vai participar da competição, tendo como navegador o experiente Lucas Cruz, antigo co-piloto de Carlos Sainz. O veículo mais parece um tanque de guerra. A foto abaixo foi divulgada na página da Speed Energy Drink, empresa de bebidas energéticas, de propriedade de Robby Gordon. Belíssima foto por sinal, concordam?

Mas a aparência imponente do Hummer não significa que o carro é indestrutível. Prova disso aconteceu no Dakar desse ano, quando Robby Gordon bateu seu carro contra uma pedra e, com a suspensão destruída, precisou ser rebocado por um valente…. Fiat 147. Detalhe: o próprio piloto tentou manobrar o 147, mas apanhou feio e foi ajudado por um motorista argentino, que finalmente conseguiu separar o Hummer da enorme pedra.

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El caballero


FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]

CAMPINAS — Conheci Marc Coma durante a cobertura do Rali dos Sertões em 2010, prova em que o catalão faturou a vitória pela primeira vez. Além de ser reconhecido como um dos melhores pilotos de moto no off-road em todos os tempos, tendo como principais títulos o bicampeonato do Dacar e o tetracampeonato mundial de rali cross-country, o espanhol sempre foi muito humilde e bastante solícito com todos aqui no Brasil.

Pois bem. Durante a quinta especial do Dacar entre as cidades chilenas de Calama e Iquique, Coma deu mais uma prova de que além de ser competentíssimo no que faz — tanto que após seis estágios, lidera a edição de 2011 — é dono de grande espírito esportivo.

Marc sofrera uma queda no km 80 do trajeto, e o acidente danificou o radiador da moto KTM de número 1. A essa altura, a diferença para o rival Cyril Despres havia caído de dez para pouco mais de dois minutos. Mais à frente, Olivier Pain, que liderava a especial, bateu forte com sua Yamaha e caiu inconsciente, fraturando o pulso.

Coma, que passava pelo local, parou e prontamente ajudou o colega de profissão, deixando a competição em segundo plano. O espanhol acionou o alarme de emergência e improvisou uma sinalização com o capacete do francês. O bicampeão esperou a chegada de Paulo Gonçalves e Joan Pedrero Garcia, companheiros de Pain. Ambos acionaram a equipe de apoio da Yamaha, e assim, Marc seguiu rumo a Iquique, já com a liderança perdida para Despres.

Após chegar no destino final da quinta especial, Coma criticou os competidores que não socorreram Olivier. Como o francês era o líder da etapa, vários pilotos passaram por ele, que só foi socorrido pelo catalão e Gonçalves. O diário ‘El País’ reproduziu um diálogo em que Marc repreendeu a atitude de Frans Verhoeven, belga da BMW.

— Frans, por que não parou?
— Como?
— Só teria de parar e perguntar: “Você tem algum problema?”, “Você está bem?”, “Precisa de ajuda?”
— Não o vi, sinto muito.

Postura bem diferente do espanhol teve Despres, que já em Iquique, declarou: “Eu vi que Marc Coma estava fazendo reparos [em sua moto]. Eu nunca me alegro com os problemas das outras pessoas. O que é importante para mim é a corrida que disputo”.

Pedrero exaltou a atitude de Marc e também criticou os oponentes que não socorreram Pain. “Isso diz muito sobre o tipo de pessoa que é Marc. Ele não foi o primeiro a encontrar [Pain]. Houve alguns pilotos que não pararam”, lembrou o piloto da Yamaha, ao deixar claro que qualquer competidor está sujeito a viver uma situação como a de Olivier. “O companheirismo é importante. Isso pode acontecer com qualquer um”.

Apesar da organização da prova não obrigar o participante do Dacar a socorrer um colega de equipe, a postura de Coma retrata um código de ética, um acordo de cavalheiros, que alguns outros insistem em ignorar, colocando a vitória acima de tudo. Como prêmio, tanto ele quanto Gonçalves receberam um prêmio de bonificação da ASO — embora nada esteja previsto no regulamento — e recuperaram o tempo no atendimento a Olivier.

É por isso que Marc Coma é diferenciado. É por isso que Marc Coma é Marc Coma.

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