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A primeira vitória de uma nova era

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Sumaré

Escrevo este post aqui da gloriosa Sumaré, mas, há quase uma semana, estava eu no briefing de apresentação do roteiro do Rali dos Sertões, onde estará o Grande Prêmio, o BloGP e este que vos escreve a partir de 16 de agosto. Após Du Sachs explicar com detalhes o trajeto da 20ª edição de um dos maiores ralis do mundo, fiz uma entrevista com Maurício Neves. Trata-se do lendário piloto que já alcançou, dentre tantos feitos, três Brasileiros cross-country (na T1), o Rali dos Sertões em 2007 e a participação no Sertões de 2009 e no Dakar de 2010 como piloto oficial da Volkswagen, correndo com o espetacular Race Touareg.

Mas, no papo que tive com Neves, abordei principalmente o XRC, o novo projeto para o rali de velocidade no Brasil. O Xtreme Rally Car vem sendo desenvolvido desde o ano passado para oferecer aos ralizeiros um carro mais barato graças à sua concepção. Trata-se de um bólido híbrido partindo de um monobloco de série, motor de 330 cv movido a etanol e usando 75% de peças usadas nas linhas de produção. O veículo tem tração 4×4, câmbio sequencial de cinco marchas e pode alcançar 210 km/h. Tudo feito pela ProMacchina, uma das equipes mais importantes do rali brasileiro, que é liderada justamente por Neves, lá no Paraná.

Na entrevista, perguntei ao piloto e chefe da ProMacchina como estava o desenvolvimento do XRC, que fez a sua estreia oficial no Rali Internacional de Erechim, etapa válida também pelo Sul-americano de rali de velocidade. Neves falou sobre os problemas que teve lá no grande Rio Grande do Sul, mas disse que recebeu uma bela e inesperada notícia nos últimos dias.

XRC conquistou primeira vitória logo na segunda etapa do Brasileiro (Foto: Divulgação)

“Em Erechim, onde o XRC estreou, o carro já tinha uma boa quilometragem. Acabou que, como todo projeto novo, tivemos alguns pequenos problemas, tivemos quase 45 dias para trabalhar em cima disso, mas não eram problemas de projeto ou nada do tipo, mas defeitos de fabricação de peças, mesmo”, explicou.

“Nesse meio tempo, a gente teve de trabalhar não só na parte técnica, mas sim politicamente fora do rali, para a homologação do carro. E a gente conseguiu muito mais do que a gente imaginava. O carro vai ser homologado pela Codasur, e a partir do ano que vem, eles vão poder correr o Campeonato Sul-americano, junto com os Lancer, enfim. A intenção era que ele fosse homologado em nível Brasil, e no fim ele vai ser homologado pela Codasur. Isso está tudo em processo, e a gente continua desenvolvendo os carros”, disse o visionário Maurício.

O preparador e comandante da ProMacchina explicou que o XRC, na verdade, não fará um campeonato à parte, como fazem, por exemplo, a Mitsubishi Cup e a Copa Peugeot, mas sim estará em disputa junto com outras categorias no Campeonato Brasileiro e também no Sul-americano. “O XRC vai andar junto com o Brasileiro. Hoje ele está em uma categoria separada, junto com a Classe 2, pode andar outros carros na categoria, mas a intenção é que, assim que a gente tiver um número maior de carros, vamos começar um trabalho de promoção e cuidado em cima da categoria XRC. Assim que passarmos do número dos cinco carros, vamos tentar trabalhar a categoria como se faz com a Stock Car ou com outra categoria monomarca, tentando baixar os custos, aumentar a competitividade e aumentar o espetáculo para todo mundo.”

Prosseguindo no assunto, Neves falou sobre a expectativa para o fim de semana, mais precisamente para o Rali de Passo Fundo, segunda etapa do Brasileiro de Velocidade e uma nova etapa no processo de desenvolvimento do XRC. “No fim de semana tem a segunda etapa, em Passo Fundo. Vamos para lá com dois carros: eu e o KZ [Morales], mais o Jean Pimentel e o Tiago Osternack, e espero não ter os mesmos problemas, pelo menos. Que sejam problemas novos, ou que não sejam. Mas estou muito empolgado com o projeto e vai dar tudo certo.”

E não é que deu certo mesmo? No último fim de semana, Neves, correndo ao lado de KZ Morales, venceu cinco das seis especiais da prova e faturou, logo na segunda participação, a vitória na classificação geral, terminando à frente até mesmo do 4×4 Turbo de Ulysses Bertholdo e Marcelo Dalmut. Pelo fato de o XRC ser um projeto ainda em estágio inicial, pelo menos em competições, é mesmo um resultado e tanto, e a comemoração é mais do que válida. Uma vitória maiúscula e histórica de uma nova era e de um projeto que já começou bem-sucedido no rali de velocidade do Brasil, mas ainda tem muito caminho para trilhar.

Voltando à entrevista, Neves falou exatamente sobre esse caminho para desenvolver o XRC e lembrou que, a maior dificuldade ainda é, disparado, a busca por maiores investimentos.

“A maior dificuldade para tocar o projeto é a falta de grana para investir. A ProMacchina não é uma empresa tão grande, então é uma luta, sempre. Às vezes eu deixo de fazer coisas minhas para investir. E acho que, em 12 anos de rali, é a primeira vez que eu acho que tenho muito mais para oferecer do que eu imaginava. Sempre fui pioneiro na construção dos carros, das Protons, trazendo o etanol de volta ao rali, e agora, trazendo o XRC, é um investimento alto. O desenvolvimento do automobilismo requer investimento.”

Neves explicou que, assim como nos últimos anos, vai estar no Rali dos Sertões em 2012 como chefe da ProMacchina, que vai levar quatro carros para o Norte-Nordeste em agosto. A intenção do experiente piloto e preparador é voltar a competir em 2013, desta vez, liderando outro projeto que tem tudo para ser tão vencedor quanto vem sendo o XRC no rali de velocidade.

“Volto no ano que vem com um projeto XRC cross-country, que é uma aposta minha, um projeto revolucionário, é um projeto que vai mudar o cenário do rali, mais uma vez. Carro para o nosso tipo de rali, não um carro que tenha a cara dos carros do Dakar. Nosso rali não se parece em nada com o Dakar, mas os nossos carros se parecem muito com os carros do Dakar. Então estou trabalhando nisso, e em 2013 eu estou de volta”, finalizou Maurício.

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