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Na rota do Sertões: Desafio Maranhão

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Carolina

Depois de um longo dia de viagem nesta quarta-feira (22), quase 600 km após sair de Barra do Corda, estamos em Carolina, base da quarta especial do Rali dos Sertões, que começou a desenhar a luta pelo título. Mas o Sertões está muito além da esfera esportiva. Ao longo desses quase 1.500 km que foram percorridos desde a saída do rali, a belíssima São Luís, vi bastante coisa interessante e contrastante que queria aqui compartilhar com vocês. A começar pelos dois primeiros dias de prova.

Depois de entrevistar a musa Helena Soares e o mito Stéphane Peterhansel, entre tantos outros, na última sexta-feira, poder acompanhar o incrível Prólogo e o empolgante Super Prime, era a hora de partir pelas estradas deste Brasil varonil.

A nossa primeira parada foi em Barreirinhas, cidade distante 253 km da capital maranhense. Cidade que aparenta ser menor do que é. É um daqueles vilarejos que lembra muito os cenários da novela do lendário Dias Gomes. Mas foi um povo bem hospitaleiro (ou bem hospitalar, como diria o outro), que recebeu muito bem a caravana do Sertões no domingo.

Conversando com alguns moradores que olhavam admirados para os imponentes carros, motos, caminhões, quadriciclos e UTVs, eles me disseram que só souberam da vinda do rali recentemente e criticaram a administração local pela falta de divulgação. De fato, não havia mesmo tanta gente esperando pelo pessoal do rali, como costuma acontecer em outras cidades daqui do Maranhão.

Nesse mesmo dia, pouco antes de ir embora, engatei uma breve entrevista com o Filipe Palmeiro. O luso, que já foi navegador de Paulo Nobre, o Palmeirinha, no Dakar e no último Rali dos Sertões, já trabalhou na equipe de apoio da Mitsubishi Brasil, disputou algumas etapas do Mundial de Cross-Country deste ano como navegador de Yazeed Al-Rahji, e que no Sertões 2012 auxilia nos trabalhos da X-raid, disse ao BloGP que vai voltar a navegar no Dakar e revelou que assinou contrato com a equipe alemã visando 2013, mas preferiu não falar sobre o piloto para quem vai trabalhar.

Mas o portuga se mostrou empolgado por estar mais uma vez aqui no Rali dos Sertões, se dizendo um apaixonado pela competição e pelo ambiente que cerca a prova.

Mas o melhor daquele dia estava por vir depois. Eu já tinha marcado de conversar com o Cristiano Teixeira, piloto que conheci durante o briefing de apresentação do Rali dos Sertões em julho, lá em Barueri. Depois de outro briefing, desta vez, dos pilotos de moto após a primeira especial da prova, tive a chance de falar com ele.

De fala mansa, como todo bom mineiro, Cristiano falou sobre sua carreira como piloto. Exemplo de vida e de esportista, ele se manteve sempre sereno ao comentar sobre seu acidente, onde perdeu parte da perna esquerda. No fim das contas, todos são vencedores apenas pela coragem de encarar o desafio do Rali dos Sertões. A reportagem completa está no Grande Prêmio.

Não há tempo para perder no Rali dos Sertões. Depois de algumas horas de descanso em Barreirinhas, era a hora de partir. O destino daquela segunda-feira era Bacabal, iniciando de vez a descida do Maranhão. Ao deixar Barreirinhas, percebi alguns detalhes bem contrastantes. Talvez seja o costume daqui, mas o fato é que era possível ver, por exemplo, muita gente andando de moto sem usar capacete, e pasmem, com até criança recém-nascida no colo de uma passageira. O trânsito parecia uma Índia, longe de ser um primor de organização, pelo contrário. Os paus-de-arara ainda sobrevivem por aqui, mas com uma configuração um pouco mais compacta, com picapes (como Toyota e S10) tendo bancos instalados para o transporte de passageiros. Tudo devidamente credenciado pela prefeitura local.

Por outro lado, na saída da cidade, avistei o imponente Instituto Federal do Maranhão, Campus Barreirinhas, que evidencia uma localidade que busca se desenvolver. Aliás, apesar do contraste e da pobreza que ainda reina por aqui, é inegável o desenvolvimento da região como um todo. Isso é atestado pelos moradores e também por quem cobre, participa ou mesmo ajuda na caravana do Sertões ano após ano.

De Barreirinhas para Bacabal foram quase 400 km, 382,1, para ser mais exato, seguindo pela BR 135. Estrada de condições satisfatórias. Detalhe: por falar em estradas, até o momento, em quatro dias de jornada, não pegamos nenhum pedágio. Quer dizer, encaramos um, mas não foi de nenhuma concessionária, como existem aos montes em São Paulo e no Sudeste do Brasil, mas essa história fica para o próximo post.

Em Bacabal, foi possível ver que a cidade, assim como muitas outras daqui do Maranhão, se desenvolveu ao redor da rodovia, que, no fim das contas, é quase como uma avenida da cidade (e de outras da região). Nesse caso, diferente de Barreirinhas, o povo compareceu em peso e prestigiou a chegada do Rali dos Sertões, que é um dos acontecimentos do ano nas cidades daqui do Maranhão.

E foi em Barreirinhas que consegui um dos dias mais produtivos por aqui. Falei com muita gente: Jean Azevedo, Felipe Zanol, Riamburgo Ximenes, Guiga Spinelli e Stéphane Peterhansel, que, obviamente, tem seu inglês afrancesado, mas consegui entender até que bem; foi uma entrevista marcante aqui para esse humilde escriba. Estar diante do melhor do mundo em alguma coisa é privilégio para poucos. Está tudo lá no Grande Prêmio.

Tem muita coisa para contar sobre o que acontece por aqui. Nos próximos dias vou colocar aqui um pouco do que aconteceu em Barra do Corda e Carolina, as últimas paradas da prova até o momento. Posso assegurar que a experiência (a minha segunda) no Sertões, é inenarrável, é maravilhosa. Vale a pena estar aqui. É puro aprendizado. Como disse um amigo certa vez, estar no Rali dos Sertões é o tipo de experiência que muda a sua vida. E muda mesmo.

Continue com a gente na cobertura do 20º Rali dos Sertões!

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