O legado de Nasser no Rali dos Sertões

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Sumaré

A conquista da medalha olímpica de bronze por Nasser Al-Attiyah no tiro skeet, nesta terça-feira, em Londres, me fez recordar uma história incrível, na qual o ‘Príncipe do Deserto’ teve papel decisivo e deixou uma legião de fãs e admiradores aqui no Brasil. Fazendo a cobertura do Rali dos Sertões, em 2010, tive o prazer de entrevistar Heleninha Deyama e Joseane Koerich em Sobral, após o fim da penúltima especial daquela prova. Ambas estavam ali, comemorando o renascimento no rali, e demonstraram gratidão com Nasser que, um ano antes, em um gesto de generosidade, amor ao próximo e também ao esporte, proporcionou à dupla seguir competindo.

A história a seguir já foi publicada no Grande Prêmio em 2010. Só que, com a mudança de servidores e de portal, já não está mais no ar da forma como foi postada. Contudo, tenho a sorte de sempre guardar meus textos aqui, principalmente os feitos para coberturas especiais. Dessa forma, compartilho com vocês novamente esse texto que dá a dimensão do caráter de Al-Attiyah e da superação de Heleninha e Josi no Sertões. O texto está praticamente na íntegra, é um tanto longo, mas, ainda assim, vale a pena a leitura. Recomendo.

Após o encerramento do briefing dos pilotos no ginásio que abrigou a organização da prova em Sobral, falei com as experientes Helena Deyama e Joseane Koerich. Foi uma conversa que valeu a pena. Valeu por ter visto o brilho nos olhos de pessoas que têm prazer em competir, mas que também têm o gosto pela superação. É esse o caso de Helena e Josi.

No alto de seu pouco mais de 1,5m de altura, a brasileira de origem nipônica não aparenta, mas é uma fortaleza em forma de mulher. Ao lado da navegadora Joseane, a pilota revelou, com exclusividade ao Grande Prêmio, como renasceu esportivamente das cinzas após superar o acidente sofrido em 2009 e voltar de forma triunfante em 2010, que se encerra nesta sexta-feira (20) em Fortaleza.

Há quase um ano, a dupla teve o carro — uma Mitsubishi Pajero — totalmente destruído em um incêndio, após vazamento de combustível. Parecia mesmo o fim. Mas essas mulheres de fibra provaram que foi apenas mais um recomeço. Muito graças a Nasser Al-Attiyah, príncipe no Catar e também piloto vice-campeão da prova com a equipe Volkswagen.

Na cerimônia de premiação e encerramento do Sertões em 2009, em Natal, Reinaldo Varela organizou uma rifa de um jogo de pneus, cujo dinheiro seria revertido a Helena e Josi. O vencedor foi o diretor de prova, Jaime Santos, que não tinha condições de levar os pneus embora. Então, foi feito um leilão dos pneus, que valiam R$ 3 mil. Nasser se manifestou e fez a doação de US$ 20 mil para a dupla adquirir um novo carro, causando comoção a todos os presentes à festa.

Deyama batizou o carro de 2010 de ‘Príncipe’, justamente em homenagem a Nasser. Inclusive, a pilota colocou um adesivo no capô do carro, demonstrando mais uma vez a gratidão, tanto sua quanto de Josi. Talvez pelos bons fluídos trazidos diretamente do Oriente Médio, as competidoras não tiveram qualquer problema e estão em 14º na classificação geral do Sertões, o que pode ser considerado um bom resultado.

“O Príncipe foi perfeito. Você vê que até colocamos um adesivo de agradecimento ao Príncipe do Catar, que nos ajudou, e o carro retribuiu. Então foi perfeito. É o melhor carro de corrida que já tive até hoje. E realmente, tenho a certeza de que vamos terminar”, frisou Helena.

A pilota lembrou o momento de emoção vivido em 2009 e garantiu: vai retribuir em Fortaleza todo o apoio demonstrado pela caravana do Sertões. “No ano passado eu chorei muito quando subi naquele palco para agradecer à ação dos pilotos que fizeram leilão, rifa, tudo para nos ajudar. E nesse ano eu vou ter o prazer de subir no palco para agradecer a eles por toda essa força e comemorar a nossa vitória em mais essa edição do rali”, comentou.

Questionada pelo Grande Prêmio sobre o sentimento particular após estar prestes a completar mais um Sertões, Helena atribuiu o sucesso aos céus. “Olha, eu acho que é uma bênção de Deus que nós estamos recebendo. É o meu 11º rali, mas este tem um sabor todo especial, porque depois de tudo o que aconteceu, eu achei que teria de parar. Foi uma coisa bastante traumatizante. Mas tudo aconteceu de uma forma tão legal que notei que ainda não era a hora. Que era o momento sim de superar isso e voltar por cima”, disse a paulista.

Por sua vez, Josi exibiu o sentimento de dever cumprido. Faltando apenas o último estágio para ser disputado — entre as cidades cearenses de Sobral e Fortaleza —, a navegadora preferiu destacar o trabalho desempenhado pela equipe Brasil Rally e se lembrou de uma promessa feita à parceira logo após o incêndio em 2009.

“É uma satisfação muito grande. O que aconteceu em 2009 foi um infortúnio. Carro, equipe, pilota, navegadora, a gente tenta fazer com que tudo dê certo. Esse ano, acho que é o resultado do trabalho, do entrosamento, do comprometimento que tive com a Helena lá no ano passado, naquele fatídico dia. Prometi que voltaríamos vitoriosas”, vibrou Koerich, que logo em seguida exaltou o desempenho de sua parceira no off-road.

“Acho que isso nada mais é do que merecimento. A Helena é uma pilota maravilhosa, guerreira, que está fazendo seu 11º Sertões. Então, ela merece mais do que ninguém”, complementou a navegadora. Assim como a parceira, Joseane também tem grande experiência, já que disputa sua oitava prova neste ano.

Joseane Koerich, Nasser Al-Attiyah e Heleninha Deyama no Sertões 2009 (Foto: David Santos Jr.)

Feliz com o sucesso da parceria, Deyama revelou que a motivação para conquistar o bom resultado neste ano veio do apoio maciço que recebeu de torcedores por todo o país, comovidos com o drama da dupla no ano passado.

“Uma coisa que me levanta muito é o carinho e a torcida dos amigos. Tem gente do Brasil inteiro que torce por nós. Eu sou uma pessoa que acredita muito na força do pensamento e na força das pessoas. E a força positiva que todas essas pessoas emitem para nós tem nos dado tanta sorte e estamos bem no Sertões”, celebrou.

O fato é que uma competição como o rali ensina muito. Ensina a viver, ensina a entender, e ensina que nada como um dia após o outro, superação em cima de superação. Helena e Joseane provam que o esporte é pródigo em apresentar exemplos como esse, guardadas às devidas proporções, como aconteceu com Nelson Piquet nas 500 Milhas de Indianápolis de 1993 e também com Ronaldo na Copa do Mundo de 2002. Voltar ao rali com grande êxito depois do incêndio de um ano atrás é como ressurgir das cinzas. Como uma fênix.

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Uma resposta para O legado de Nasser no Rali dos Sertões

  1. ChristianS disse:

    Muito legal ver esta matéria novamente. Vi na primeira vez que foi publicada e agora novamante. Obrigado por republicar o post.

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